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18/12/2009

Entrevista com Fernando Costa Straube


A entrevista abaixo foi originalmente cedida pelo amigo ornitólogo FERNANDO COSTA STRAUBE, para o antigo Boletim Informativo do COAVE, em agosto de 2005.

Straube nasceu em Curitiba - PR em 04/06/1965. É pesquisador de Ornitologia, ciência da qual se ocupa desde janeiro de 1982. É filiado em mais de uma dezena de entidades voltadas à pesquisa em História Natural, conservação de biodiversidade e ciências afins (história, geografia, etnografia, linguística), dentre elas a "Mülleriana: Sociedade Fritz Müller de Ciências Naturais", na qual ocupou o cargo de presidente, entre 1997 e 2002; atualmente é membro do Conselho Fiscal e presidente da Comissão Editorial. É membro-fundador da Sociedade Brasileira de Ornitologia (SBO), sendo também vinculado ao Instituto Histórico e Geográfico do Paraná (IHGP) e da Herons Specialists' Group da IUCN. Participa atualmente do Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos - CBRO. Compõe o grupo organizador da Lista de Discussão de Ornitologia Brasileira - ornitobr. Soma quase 50. 000 horas de pesquisa de campo, dedicadas à observação e coleta de material biológico de vários grupos de animais e plantas, com especial ênfase às aves silvestres.

Participou, como colaborador ou consultor ad hoc, em diversas edições voltadas à Ornitologia, dentre teses de doutorado, dissertações de mestrado, monografias, artigos técnicos e científicos e livros.

Desenvolve atualmente, inúmeros estudos sobre taxionomia, distribuição geográfica, história, atualização conceitual, linguística e etnografia, em franca colaboração com vários estudiosos brasileiros e de outros países. Está concluindo o livro "Harpia e gralha-azul: as aves e os símbolos do Paraná" aprovado para publicação pela Editora UFPR e o "Crônicas de naturalista", um relato sobre as experiências vividas durante quase 20 anos de estudos nas matas e campos brasileiros.

 

COAVE – Straube, como surgiu o seu interesse pela ornitologia?

 

Straube – Veio muito cedo nem posso lembrar quando. Todos sabem que a evolução segue suportada por dois componentes: um genético e outro ambiental. Meu trisavô e meu avô eram naturalistas: esse foi o componente genético. E meus pais me deram todo o apoio do mundo para que me dedicasse à pesquisa das aves silvestres, criando um componente ambiental perfeito. Quando eu era muito pequeno, eu copiava os nomes científicos citados em enciclopédias. Aquilo me fascinava, ao tempo em que anotava aspectos da biologia, comportamento etc. Dentre todos os grupos animais, acabei escolhendo as aves. Não sei explicar porque. Eu poderia dizer que foi uma descoberta de um dom, sem ir atrás, sem cobranças pessoais nem nada. Apenas o interesse pela Ornitologia aflorou, espontaneamente... Bem da verdade, as aves eram o melhor instrumento de observação que eu tinha disponível, quando brincava nos terrenos baldios dos arredores de minha casa, no bairro Cabral, em Curitiba. Desse ponto, passei a confrontar as figuras dos livros (ainda muito rudimentares no fim da década de 70) com os animais que eu próprio observava. Com o tempo eu ia aprendendo a me disfarçar no mato e ficar muito quieto, a fim de me aproximar cada vez mais dos passarinhos e vê-los com maior nitidez e detalhes. Aprendi cantos e me instrui a anotar minhas observações... Aos poucos, após o famoso curso para observadores de aves (1982) organizado pelo Pedro Scherer, ingressei na vida científica.





COAVE – Que tipo de benefícios ambientais e sociais a observação de aves pode gerar?



Straube – São muitos. Na verdade eu chamaria de infinitos, pois de tão grandes que são, não consigo ver um horizonte que limite os seus potenciais para o presente e para o futuro. Além disso, eu voltaria a um degrau abaixo da escala ambiental/social: são também infinitos os benefícios educacionais! Quando buscamos uma educação, teremos pouco a nos preocupar com a questão ambiental e social. Se os estrategistas ambientais entendessem e absorvessem logo essa máxima, poderíamos pensar em um futuro melhor para todos. A educação tem de estar em primeiro plano. Nesse sentido, ela fornece estrutura de base - sustentação - para as questões ligadas ao meio-ambiente e à sociedade. Há algum tempo eu tenho planejado uma estratégia que é a criação de uma disciplina, no ensino fundamental. Ela se chamaria "Observação da natureza" e seria ministrada a alunos de pouca idade, logo no começo de suas vidas. Quando você ensina para as crianças as coisas da natureza, não precisa obrigá-las a preservar. Nosso instinto humano já é preservacionista. E as aves, com seu potencial educativo imenso, seriam uma parte grande dessa proposta. Só aqui dá pra ter uma ligeira ideia dos benefícios que a observação de aves traria para o mundo.





COAVE – A atividade pode gerar, de alguma forma, algum impacto ambiental negativo?



Straube – Claro que sim. Porém esses impactos podem ser minimizados ou mesmo eliminados. Basta que os profissionais ligados a essa prática mantenham-se sempre atentos. Eles devem cuidar para que as pessoas mantenham tudo em seu devido lugar e que aprendam que a observação e as recordações são as únicas coisas que poderão tirar da natureza. Aquelas leis de ecoturismo, já enfadonhas, mas obviamente lúcidas, são obrigatórias: não leve nada além de fotografias, não deixe nada além de pegadas... Outra questão é que ainda não estamos preparados para um fluxo muito grande de turistas para observação de aves ou de natureza como um todo. O Parque Nacional do Iguaçu, por exemplo, tem um número ridículo de visitantes interessados em observação de aves, mas mesmo assim, apresenta a maior taxa de visitação de unidade de conservação no Brasil: em média um milhão de pessoas todos os anos. Calcule essa gentarada toda, ou um quarto disso (até mesmo um décimo), visitando anualmente uma área também protegida, porém sem estrutura para receber turistas... Nem que todos esses visitantes fossem ambientalmente conscientes, não haveria como evitar distúrbios à natureza. Então, além de todos os cuidados que devem ser tomados, há a necessidade de formulação de planos para a exploração de ecoturismo.





COAVE – O que o turista estrangeiro procura na avifauna brasileira?



Straube – Embora isso não faça parte do cotidiano do leitor brasileiro, é fácil explicar. Da mesma forma que algumas pessoas colecionam selos, há outras que colecionam recordações. E essas lembranças podem ser temáticas, no caso, espécies de aves. E podem ser organizadas, desta maneira, acompanhadas de locais, datas etc. Muitos e muitos estrangeiros têm um caderninho contendo o nome de todas as espécies de aves que já observaram em suas vidas, adicionados a detalhes alusivos à observação (desenho, tipo de árvore onde ela estava empoleirada, o que estava comendo). Podem ser 50, 100, 500, 1000 espécies... Em alguns países chega-se a estabelecer uma hierarquia para o número de espécies observadas: tem o clube dos 50's, dos 200's e assim por diante. Levando-se em consideração tudo isso, calcule o que pode - primariamente - interessar ao estrangeiro na avifauna brasileira. Temos aqui quase 1.800 espécies de aves [no mundo inteiro são pouco mais de 9.000]. E olhe que esse número ainda é preliminar, visto que muitas e muitas novas espécies têm sido descobertas nos últimos anos e também muitas revisões científicas têm sido feitas. Na minha opinião, o Brasil logo será o país mais rico em aves (ainda perde para a Colômbia e Peru) em todo o mundo. Além disso, há razões paralelas: temos um sistema hoteleiro razoável, transporte aéreo e rodoviário também aceitável, cidades interessantes, belezas cênicas incomparáveis. Há melhor razões para visitar nosso país?





COAVE – Sabemos que a atividade é bastante desenvolvida em outros países, no entanto, no Brasil, apesar da grande diversidade de espécies isto não ocorre. A que isto se atribui, na sua opinião?



Straube – Baseia-se apenas em falhas de estrutura como toda máquina que não funciona. Matéria-prima tem e de sobra. O que falta é saber como utilizá-la. O turista pensa que aqui não terá bons guias; pensa que terá problemas de segurança e que poderá ser assaltado por um índio que lhe apontará uma flecha envenenada com curare ao desembarcar no Galeão... Em parte ele está certo: terá dificuldade em encontrar bons (e bilíngües - isso é muito importante!) guias e até poderá ser assaltado logo ao chegar. Mas não é só isso. Essas fatalidades estão passíveis de ocorrer em qualquer lugar do mundo e aqui não será diferente. O problema é que existem, sim, ótimos guias, mas não há campo de trabalho para eles. Dessa forma, grande parte dos guias especializados em observação de aves acaba trabalhando nisso apenas como um trabalho eventual. E porque não há campo de trabalho? Porque as empresas de turismo ainda não descobriram esse filão! E porque não descobriram? Porque são mal organizadas, porque fazem um turismo pré-histórico baseado em pacotes básicos de visitas a lugares mais do que conhecidos... Comodismo, eu diria. É incrível: se aqui temos hotéis bons, transporte aéreo e rodoviário razoáveis, comida boa e barata e, além de tudo, uma das maiores riquezas de aves no planeta, porque então não se explora isso nos pacotes de turismo? Porque raios os turista birdwatcher estrangeiro tem de - ele próprio - planejar o seu próprio roteiro de viagem, indo atrás de guias, de lugares etc? Desafio todos os leitores a procurarem pela internet alguma empresa brasileira que ofereça profissionais especializados em observação de aves e, claro, que sejam bilíngües. Existem, eu sei. Mas elas suprem a carência que temos aqui para o já enorme público de observadores de aves que querem visitar o Brasil apenas para "ver passarinhos"? Com certeza não. Por certo, uma pequena pesquisa de mercado seria o estopim para uma revolução no turismo brasileiro. Basta ter vontade.



PALAVRA ABERTA



Meu recado vai para várias frentes de turismo. Gerentes de grandes empresas: arrisquem! Incluam, experimentalmente, pacotes com observação de aves em seus planos comerciais. Contratem profissionais especializados e inovem. Governo brasileiro: eduque! Monte caravanas itinerantes para ministrar cursos para guias de observação de aves para crianças e jovens; leve essa ideia para todo o País! Guias de turismo: estudem e aprendam outras línguas, o momento certo está chegando!

Fernando Costa Straube




Comentários

Maria Cristina Isabel Gabardo Costa - 25/02/2012
Gostei muito desses esclarecimentos; aprendi...

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