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09/05/2011

Doutora em Ecologia, Martha Argel, concede entrevista ao COAVE


Martha Argel é bióloga pela USP e obteve doutorado em Ecologia pela UNICAMP. Durante muitos anos atuou em pesquisas acadêmicas e participou ativamente da comunidade ornitológica brasileira. Deu aulas de graduação e pós-graduação em várias universidades privadas e trabalhou por mais de duas décadas em consultoria ambiental.
Além de inúmeros artigos científicos, publicou livros de divulgação, como Voando pelo Brasil (2004) e Maravilhas do Brasil: Aves (2005), este em parceria com o fotógrafo Fábio Colombini. Participa, ainda, da elaboração de livros didáticos para os ensinos fundamental e médio. Também tem vários livros de ficção publicados, incluindo O Vampiro da Mata Atlântica (2008), romance voltado para o público jovem. Seu lançamento mais recente é o guia de campo da Wildlife Conservation Society, Aves do Brasil – Pantanal & Cerrado (2010), juntamente com John Gwynne, Robert Ridgely e Guy Tudor.


ENTREVISTA:

COAVE:
Em que momento da sua vida você decidiu que seria bióloga? Houve alguém ou algum fato que a motivou a seguir este caminho acadêmico?

MARTHA:
Desde pequena gosto de animais. Quando tinha uns seis ou sete anos, minhas leituras favoritas era as coleções de fascículos sobre os animais que saíam em bancas de jornal. Passava as férias na fazenda, onde costumava explorar o pomar, a beira do rio e as capoeiras, junto com meu irmão. No resto do tempo, eu lia, de tudo, mas principalmente livros e revistas que falavam de natureza e agropecuária. E também escrevia, tanto ficção quanto crônicas sobre as coisas que observava. O bacana era que eu convivia com outras crianças que também tinham curiosidade sobre o meio ambiente, então para mim era tudo muito natural.


COAVE: E o interesse pelas aves, surgiu quando e de que maneira?

MARTHA: Eu tinha quinze ou dezesseis anos. Em uma viagem à cidade de minha mãe, na Argentina, meus parentes resolveram, talvez por conta de meu entusiasmo pela natureza, conseguir para mim todos os livros de aves que encontrassem (e que não eram muitos, claro!). No meio de tudo, uma publicação bem tosca sobre as aves da região me fez começar a procurar todas as espécies tratadas, como uma verdadeira twitcher! Voltei para o Brasil, ganhei dois pares de binóculos antigos, e foi assim que comecei a estudar as aves brasileiras, com livros argentinos, um binóculo de teatro e outro de plástico. No Natal ganhei meu primeiro binóculo de verdade – um DFV 15x50! – e em seguida o primeiro guia... para as aves da América do Norte! Isso foi muito antes de saírem publicados os livros do Dalgas Frisch e do Helmut Sick. Não, não eram tempos fáceis, rs.


COAVE: Da mesma forma que você é tida como exemplo dentro do ramo da ornitologia, existe alguém que lhe serviu ou serve de inspiração no estudo das aves?

MARTHA: Eurico Santos e Rodolpho von Ihering. Nos últimos quarenta ou cinquenta anos ninguém fez o que esses dois fizeram pela divulgação de nossa fauna entre o público leigo. De um ponto de vista mais pessoal, Emilia Snethlage, por seu papel único de precursora da participação feminina na ciência brasileira.


COAVE: Qual a sua opinião sobre a utilização da Observação de Aves como ferramenta de Educação Ambiental nas escolas e nas comunidades?

MARTHA: Muitos anos atrás publiquei um texto sobre esse assunto, que depois coloquei na internet, e ainda hoje penso exatamente do mesmo modo. A observação de aves é uma porta de entrada para a natureza. As aves estão a nossa volta, em todos os ambientes onde o ser humano vive, e além de serem fáceis de ver não geram a repulsa que muitos outros animais próximos a nós geram. A população brasileira urbanizou-se acentuadamente nas últimas décadas, e com isso perdeu o contato com o ambiente natural e a capacidade de observar a natureza. A percepção das aves  pode ser um caminho para aumentar o interesse e a preocupação das pessoas pela conservação de nosso patrimônio natural.


COAVE: Qual a sua opinião sobre a atividade turística de Observação de Aves no Brasil? Ela é exclusiva dos grandes destinos como Amazônia e Pantanal, ou pode vir a se concretizar em regiões menos conhecidas?

MARTHA: O potencial do turismo de observação de aves no Brasil, como fonte de renda, como gerador de postos de trabalho e como agente da conservação ambiental, é imenso e virtualmente inexplorado. Não estamos falando apenas dos birdwatchers estrangeiros “hardcore”. Eles são apenas a ponta do iceberg, uma fração diminuta do total de turistas, nacionais e internacionais, que viajam para simplesmente curtir nossas belezas naturais. A prática da observação de aves pode enriquecer a viagem de qualquer pessoa que esteja em busca de um contato maior com a natureza, e isso significa que a atividade pode (e deve!) ser fomentada praticamente em qualquer lugar.


COAVE: Suas publicações na área da ornitologia são de uma variedade incrível. Você poderia nos contar de onde parte a escolha por um determinado tema? Discussões com colegas, observações cotidianas, pesquisa, outros?

MARTHA: Em geral o que me chama a atenção são os fenômenos e eventos corriqueiros, que acontecem em qualquer lugar e a todo momento. Vem daí meu interesse por aves urbanas, e pelo comportamento de espécies comuns. Um outro aspecto que norteia meu trabalho é a vontade de me comunicar com o público mais amplo possível. Foi assim que passei dos artigos científicos para os textos de divulgação, depois para a ficção e os livros didáticos. Entendo que o conhecimento científico deve ser espalhado além dos estreitos limites da comunidade acadêmica. Caso contrário, perpetua-se a absurda situação atual: um punhado de cientistas, dentro de sua redoma de vidro, fazendo uma pesquisa altamente elaborada, às custas do dinheiro de uma sociedade cientificamente iletrada, que não dá a mínima para a ciência.


COAVE: Você foi a responsável pela criação de importantes grupos de discussão sobre ornitologia e birdwatching, como o OrnitoBr e o BirdwatchingBr. Que tipo de evolução você consegue perceber nas discussões e no perfil dos participantes destes grupos?

MARTHA: Sou suspeita para falar, mas acho que o OrnitoBr marcou a maioridade da ornitologia no Brasil, ao promover o contato dos pesquisadores entre si e com a Sociedade Brasileira de Ornitologia. O BirdwatchingBr também foi um divisor de águas para a observação de aves, e uma de suas consequências mais imediatas e extraordinárias foi o surgimento do Avistar, a partir do pontapé inicial do Guto Carvalho numa mensagem para outros membros do grupo. Não tenho participado das discussões; por outro lado, como já não tenho contato com bibliotecas e instituições de pesquisa, as listas são meu meio de manter-me mais ou menos atualizada quanto ao estudo das aves. Acho ótimo quando as pessoas postam notícias e informam sobre publicações, e adoraria que mais gente mandasse novidades sobre seus artigos e descobertas. Costumo aproveitar bem as coisas que garimpo no OrnitoBr e no BwBr; posso não participar, mas presto uma atenção de coruja! :-)


COAVE: Acompanhando os seus trabalhos, podemos imaginar a agitação do seu dia-a-dia. Então gostaríamos de saber: A Martha consegue um tempo exclusivo para praticar Observação de Aves como uma atividade de lazer?

MARTHA: Sim! Em São Paulo, coloco frutas para as aves na minha varanda, todos os dias, e volta e meia dou uma olhada em quem está se alimentando. E quando viajo, o binóculo sempre vai junto.


COAVE: Fale-nos sobre o Projeto que resultou na publicação do livro “Aves do Brasil – Pantanal e Cerrado”.

MARTHA: O guia Aves do Brasil, da WCS, foi concebido por John Gwynne, por inspiração do saudoso primatólogo Márcio Ayres, que por volta de 2000 lhe pediu que fizesse um guia de aves brasileiras, para ajudar a deter a destruição ambiental em nosso país. John aceitou, e conseguiu trazer para o projeto Bob Ridgely e Guy Tudor; mais tarde ele me convidou para fazer a ponte entre as equipes nos EUA e no Brasil, e coordenar os trabalhos aqui. Desde o início, foi John quem imprimiu ao guia sua característica mais fascinante: ele é voltado principalmente para os não observadores de aves, para pessoas que, por falta de um estímulo, nunca pensaram em “olhar passarinhos”. Nosso guia foi pensado para ser esse estímulo. Mas isso não significa que os birdwatchers sejam ignorados; muito pelo contrário, pois eles na verdade são promovidos do papel de simples usuários ao status de parceiros na disseminação da observação de aves como instrumento para promover o amor à natureza e o interesse por sua conservação. Foi a partir do conceito de que nosso guia é “mais do que um bom guia de campo” que surgiu o Projeto Aves do Brasil, que reúne ações que vão além do livro – workshops, apresentações, publicações, website.


COAVE: Existe mais algum projeto voltado à ornitologia que você gostaria de realizar no futuro?

MARTHA: Sim, vários! De imediato, estou coordenando os trabalhos para o website do Projeto Aves do Brasil, voltado para os observadores iniciantes, estudantes e professores. E, claro, já começamos a trabalhar, John Gwynne, Bob Ridgely, Guy Tudor, eu e várias outras pessoas, no segundo volume do guia de campo Aves do Brasil, que vai abordar a Mata Atlântica do sudeste. Fora isso, tenho dois livros nos quais venho trabalhando há anos, que algum dia quero publicar, e também tenho planos de escrever mais para crianças.


Palavra aberta:
Quero agradecer ao Maicon Mohr por esta oportunidade de falar um pouco sobre meu trabalho e, ainda, dar os parabéns ao COAVE, por sua trajetória já de quase dez anos. Que muitos outros grupos se inspirem em seu exemplo e se organizem pelo Brasil afora, difundindo a observação das aves e da natureza e ajudando as pessoas a perceberem como é maravilhoso nosso patrimônio natural. O interesse e o fascínio são o caminho mais curto para a participação efetiva na conservação da natureza!


Para saber mais sobre seu trabalho, visite o blog http://vampirapaulistana.blogspot.com e o site www.marthaargel.com.br.




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